{"id":2012,"date":"2021-06-30T16:52:57","date_gmt":"2021-06-30T19:52:57","guid":{"rendered":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/?p=2012"},"modified":"2026-03-12T14:35:26","modified_gmt":"2026-03-12T17:35:26","slug":"vozes-da-agricultura-ecologica-cap-2-olimar-pontel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/vozes-da-agricultura-ecologica-cap-2-olimar-pontel\/","title":{"rendered":"Vozes da Agricultura Ecol\u00f3gica &#8211; Cap. 2: Olimar Pontel"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou na comunidade Linha 30, interior de Ant\u00f4nio Prado, linda cidade de coloniza\u00e7\u00e3o italiana da Serra Ga\u00facha. A 50 quil\u00f4metros da famosa Caxias do Sul, a maior for\u00e7a econ\u00f4mica da principal regi\u00e3o vitivin\u00edcola do pa\u00eds. Segundo os n\u00fameros da equipe t\u00e9cnica do Centro Ecol\u00f3gico, na safra de 2016\/2017 foram colhidos 12 milh\u00f5es de quilos de uvas ecol\u00f3gicas na Serra Ga\u00facha. Pergunto ao Olimar Pontel como se sente sabendo que as 15 toneladas que sua fam\u00edlia produziu em 1990\/91 foram as primeiras, nesta hist\u00f3ria de quase 30 anos.<\/p>\n<p>\u2014 <em>\u00c0s vezes, penso sobre isso. Mas nunca me senti melhor ou pior que os outros por esse fato, foi assim que aconteceu<\/em>.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o, Gilmar Pontel, complementa:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Na \u00e9poca, t\u00ednhamos poucas informa\u00e7\u00f5es, era s\u00f3 a calda bordalesa e o Super Magro. Acho que na uva fomos as cobaias. Tenho orgulho de ter sido cobaia. Foi um desafio que ainda estamos vencendo, mas sei que servimos de exemplo para muita gente<\/em>.<\/p>\n<p>Gilmar, casado e com um filho, segue morando na mesma propriedade dos pais e, hoje, \u00e9 quem cuida deste hist\u00f3rico parreiral, de 1,2 hectare. Olimar casou-se em 1999 e hoje trabalha na terra da fam\u00edlia da esposa.<\/p>\n<p>Vou junto com eles tentando reviver a hist\u00f3ria. Olimar conta que entrou no semin\u00e1rio em 1982, em Farroupilha, onde ficou tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>\u2014 Queria ser padre, Olimar?<\/p>\n<p>\u2014 <em>N\u00e3o, mas o semin\u00e1rio era muito bom. Quando fui visitar e vi que tinha tr\u00eas campos de futebol, sala de jogos e outras formas de divertimento decidi que iria estudar l\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>Em 1985, voltou para casa. Logo entrou na Pastoral da Juventude Rural \u2013PJR. Em Ant\u00f4nio Prado as comunidades rurais tinham um grupo de jovens, estimulados pela Igreja. Um ou dois representantes de cada comunidade conformava uma esp\u00e9cie de coordena\u00e7\u00e3o da PJR.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Como eu tinha estudado fora, na primeira elei\u00e7\u00e3o para coordenador do grupo apareceu meu nome. Eu nem sabia para que estava sendo eleito, mas n\u00e3o tive coragem de dizer n\u00e3o, a\u00ed fiquei, fui aprendendo<\/em>.<\/p>\n<p>\u2014 E a Agricultura Ecol\u00f3gica, como entrou na tua vida?<\/p>\n<p>\u2014 <em>A primeira vez que ouvi falar foi na palestra que voc\u00eas fizeram sobre o efeito dos agrot\u00f3xicos aqui na comunidade. Vindo do mundo que eu vinha, comecei a analisar, pois eu trabalhava com ma\u00e7\u00e3 e uva e lidava com veneno a cada dia<\/em>.<\/p>\n<p>Olimar ficou com medo. Segundo ele, veneno \u00e9 uma roleta russa.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Posso ficar rico com uma roleta russa, mas se ela estourar&#8230; pode ser fatal<\/em>.<\/p>\n<p>Dona Zilba Pontel, m\u00e3e de Olimar e Gilmar, explica:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Nessa \u00e9poca, o Olir (o esposo), j\u00e1 estava meio intoxicado, sentia falta de ar, dor no est\u00f4mago. Cada vez que pulverizava tinha que tomar um rem\u00e9dio, que compr\u00e1vamos na farm\u00e1cia<\/em>.<\/p>\n<p>Pergunto pelo marido.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Est\u00e1 l\u00e1 nas terras que temos ao lado do Rio das Antas, trabalhando<\/em>.<\/p>\n<p>Lamento que n\u00e3o o verei. Mas sigo o di\u00e1logo.<\/p>\n<p><em>\u2014 Sentia medo, Dona Zilba?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Sentia, sim! Fomos os primeiros e n\u00e3o sab\u00edamos se ia dar certo, se n\u00e3o desse certo perd\u00edamos tudo.<\/em><\/p>\n<p>Quero voltar um pouco a essa palestra em que o Olimar afirma que foi a primeira vez que ouviu falar da proposta de produzir sem venenos. Vou contar rapidamente parte desta hist\u00f3ria. Na primeira metade da d\u00e9cada de 80, profissionais preocupados com o uso de venenos na agricultura e entidades ambientalistas do Rio Grande do Sul se mobilizaram em torno de uma Lei Estadual para regular o uso desses produtos. Quem quiser se informar sobre esta hist\u00f3ria sugiro o livro do Antenor Ferrari, deputado estadual nesse per\u00edodo, \u201cAgrot\u00f3xicos: A Praga da Domina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A partir dessa mobiliza\u00e7\u00e3o, algumas pessoas ligadas \u00e0 ADFG \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Feminina Ga\u00facha, representante da Amigos da Terra no Brasil, definiram por organizar uma propriedade rural com um novo modelo de produ\u00e7\u00e3o \u2013a Agricultura Ecol\u00f3gica, e o local escolhido foi o interior do munic\u00edpio de Vacaria, no Nordeste Ga\u00facho.<\/p>\n<p>A essa propriedade, \u00e0 \u00e9poca chamada de Fazenda Modelo, deu-se o nome de \u201cProjeto Vacaria\u201d, que come\u00e7ou a desenvolver o trabalho em 1985. Essa iniciativa acabou transcendendo, em 1988, para o CAE \u2014 Ip\u00ea, hoje Centro Ecol\u00f3gico<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Em 1988, o CAE, atrav\u00e9s da sua fundadora e coordenadora, a agr\u00f4noma Maria Jos\u00e9 Guazzelli, estabelece uma parceria com a Pastoral Rural da Diocese de Caxias do Sul, centrada na figura do Padre Jo\u00e3o Bosco Schio<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, um dos fundadores da Pastoral da Terra no Rio Grande do Sul, e durante d\u00e9cadas, p\u00e1roco de Ant\u00f4nio Prado. Parte desta parceria, muito mais uma rela\u00e7\u00e3o de amizade, materializava-se em palestras nas comunidades rurais de Ant\u00f4nio Prado. Essas palestras, na maior parte ministradas pela Maria Jos\u00e9, foram sempre acompanhadas por mim e pela agr\u00f4noma Ana Luiza Meirelles<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, e proferidas em muitas comunidades rurais. Eram basicamente divididas em dois momentos: primeiro eram abordados os efeitos colaterais da mal denominada Revolu\u00e7\u00e3o Verde<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e, posteriormente, eram dados exemplos de como trabalhar sem veneno. \u00c9 a essa palestra que o Olimar se refere. Como mencionado, Olimar nos conta que ficou com medo. Os impactos dos venenos na sa\u00fade humana o impressionaram. Mas, como sabemos, o medo \u00e9 irm\u00e3o da coragem. E ele e sua fam\u00edlia tiveram suficiente coragem para em 1990, ap\u00f3s algumas atividades de forma\u00e7\u00e3o, converterem todo o seu parreiral em apenas um ano.<\/p>\n<p>Dentre essas atividades de forma\u00e7\u00e3o, vou destacar um curso na sede do Centro Ecol\u00f3gico em que o t\u00e9cnico agr\u00edcola, Delvino Magro, ensinou aos agricultores uma formula\u00e7\u00e3o que havia testado em seu pomar de ma\u00e7\u00e3s com sucesso. Era um biofertilizante enriquecido. Nessa reuni\u00e3o, ap\u00f3s Delvino ensinar aos jovens como elaborar esse biofertilizante, lhe foi perguntado o nome desta formula\u00e7\u00e3o. Respondeu que n\u00e3o havia um nome espec\u00edfico. Foi quando um dos jovens agricultores presentes, Itair V\u00edgolo, em tom de brincadeira, sugeriu: Super Magro! Naquele momento, ningu\u00e9m podia imaginar que esta ideia dos biofertilizantes enriquecidos, esta formula\u00e7\u00e3o e este nome se tornariam mundialmente conhecidos.<\/p>\n<p>A conversa com Olimar me faz mergulhar em uma viagem ao passado. Um passado que emociona sempre que volto a ele.<\/p>\n<p>\u2014 Olimar, como foi essa experi\u00eancia de produzir uvas ecol\u00f3gicas sem nenhuma refer\u00eancia na regi\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 <em>Pois \u00e9. As coisas n\u00e3o ocorrem por acaso. A Maria Jos\u00e9 tinha nos dito para fazermos um teste com o uso de Super Magro e Calda Bordalesa apenas em sete fileiras. Mas aquele ano foi perfeito para a uva. Eu sugeri ao pai que, enquanto o clima colaborasse, poder\u00edamos trabalhar todo o parreiral. E o clima ajudou.<\/em><\/p>\n<p>Dona Zilba conta um pouco diferente:<\/p>\n<p>\u2014 <em>O Olir disse \u201cse for para fazer vamos fazer no parreiral todo\u201d. Ele j\u00e1 estava ruim de sa\u00fade com os venenos mesmo \u2014 completa ela<\/em>.<\/p>\n<p>Mas nem tudo correu t\u00e3o suave. Toda a fam\u00edlia se recorda do susto que levou quando, na manh\u00e3 seguinte da aplica\u00e7\u00e3o de uma dose maior que a recomendada de Super Magro, o parreiral amanheceu com as folhas avermelhadas. Acharam que haviam queimado todo o parreiral, que n\u00e3o iriam colher nada. Sempre bom lembrar que parte muito importante da renda da fam\u00edlia vinha dessa colheita. Olimar conta:<\/p>\n<p>\u2014 <em>O pai levantou cedo e se assustou, \u201co que fizeram l\u00e1?\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Preocupados, foram no vizinho telefonar para chamar algu\u00e9m do CAE \u2014 Ip\u00ea para ver o que havia acontecido. Lembro-me bem que fomos eu e o Delvino Magro<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O Magro, com seu conhecimento t\u00e9cnico, mas sobretudo com sua experi\u00eancia no trabalho junto \u00e0s fam\u00edlias da regi\u00e3o, se antecipa e d\u00e1 os parab\u00e9ns ao Olir Pontel, pois eles haviam, com aquele tratamento, eliminado todo o o\u00eddio, um fungo que pode impedir uma boa colheita em determinadas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Magro j\u00e1 conhecia o pai, sabia que, naquele momento, com um elogio, o ganharia \u2014 completa Olimar, sorrindo<\/em>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse epis\u00f3dio, e com um bom clima naquele ano, tudo seguiu sem maiores sobressaltos, e a colheita foi boa. Contra as previs\u00f5es, eles n\u00e3o \u201cmorreram de fome\u201d. Mas essas n\u00e3o foram todas as emo\u00e7\u00f5es que estavam reservadas para a fam\u00edlia Pontel naquela primavera-ver\u00e3o de 1990\/91. Enquanto a uva seguia seu ciclo, ocorreu o epis\u00f3dio da framboesa.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que um irm\u00e3o do Olir vivia em Flores da Cunha e insistia para que seu irm\u00e3o e sobrinhos plantassem framboesa.<\/p>\n<p>Tanto queria que foi a um viveiro, comprou duzentas mudas e deu para eles. A fam\u00edlia decidiu plantar sim, mas uma \u00e1rea maior. Compraram mais tr\u00eas mil mudas. No primeiro ano, 1989, venderam toda a colheita para as mesmas pessoas de quem haviam comprado as mudas. Eram representantes de uma conhecida ind\u00fastria de doces de Porto Alegre.<\/p>\n<p>No inverno de 1990, um vizinho ouviu pelo r\u00e1dio que a ind\u00fastria de Porto Alegre pagava o dobro do que os intermedi\u00e1rios pagavam. A fam\u00edlia achou por bem oferecer framboesa diretamente \u00e0 ind\u00fastria. O setor de compras solicitou uma amostra. Decidiram ir \u00e0 capital! Quase chegando, j\u00e1 no p\u00e1tio da ind\u00fastria, o carro apresentou problema mec\u00e2nico. Neste instante os compradores, j\u00e1 conhecidos deles e que intermediavam a compra da framboesa, passaram e entraram antes na sala de negocia\u00e7\u00e3o. Quando finalmente a fam\u00edlia Pontel p\u00f4de entrar na sala e oferecer sua produ\u00e7\u00e3o a ind\u00fastria se recusou a comprar, dizendo que deveriam seguir fazendo o neg\u00f3cio com o representante deles na Serra.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Voltamos com um problema. Muita framboesa e sem ter onde vender, porque n\u00e3o quer\u00edamos dar o bra\u00e7o a torcer. N\u00e3o sab\u00edamos o que fazer.<\/em><\/p>\n<p>\u2014 E qual foi a solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 <em>A Ana Meirelles e a Maria Jos\u00e9 Guazzelli apareceram aqui com uma posibilidade. Dever\u00edamos fazer suco com parte da nossa produ\u00e7\u00e3o. Trouxeram uma pequena panela de extra\u00e7\u00e3o por vapor de arraste, para apenas cinco quilos de fruta. Gostamos da ideia e, al\u00e9m de suco, fizemos geleia e uma esp\u00e9cie de compota sem a\u00e7\u00facar.<\/em><\/p>\n<p>Lembro-me de que esta pequena panela era da m\u00e3e do Jorge Vivan<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Pe\u00e7o para Olimar seguir a hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>\u2014 <em>A Cooperativa Ecol\u00f3gica Coolm\u00e9ia, organizadora da Feira dos Agricultores Ecologistas, se mobilizou. Conseguiram trazer o jornal Zero Hora e foi feita uma grande reportagem. A manchete foi \u201cA Framboesa vai \u00e0 Feira\u201d. Esta propaganda foi maior do que as nossas pernas. Levamos quatrocentas bandejas de framboesa e antes das nove da manh\u00e3 j\u00e1 t\u00ednhamos vendido tudo. Pagamos mico. Vendemos at\u00e9 algumas bandejas que hav\u00edamos separado porque as frutas estavam bichadas. Foi um sucesso. Seguimos vendendo bem nas semanas seguintes. Dessa forma, vendemos toda nossa produ\u00e7\u00e3o a um pre\u00e7o muito melhor<\/em>!<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio das framboesas, naquela ocasi\u00e3o, foi um s\u00edmbolo do desejo de eliminar os intermedi\u00e1rios. Esta hist\u00f3ria foi contada muitas vezes, para as in\u00fameras visitas que foram recebidas pela fam\u00edlia Pontel. A inten\u00e7\u00e3o de repeti-la sempre era mostrar a necessidade de buscar mecanismos de comercializa\u00e7\u00e3o que eliminam elos que separam o produtor do consumidor. Quase 30 anos e muitos aprendizados depois, hoje seguimos reconhecendo nas feiras de agricultores ecologistas nosso principal canal de comercializa\u00e7\u00e3o, mas outras estrat\u00e9gias que muitas vezes envolvem intermedia\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser desprezadas.<\/p>\n<p>O acontecido com a framboesa tamb\u00e9m trouxe outra consequ\u00eancia. Na mesma linha de eliminar as intermedia\u00e7\u00f5es precis\u00e1vamos nos preparar para a safra da uva, bem maior que a da framboesa. Imposs\u00edvel pensar em processar 15 ou 20 toneladas de uva em uma panela de extra\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9todo vapor de arraste com capacidade de apenas cinco quilos de uva. Muito menos imaginar que na \u00fanica feira que havia naquele momento poder\u00edamos comercializar <em>in natura<\/em> a uva que seria toda colhida em duas semanas. Mais uma vez a Maria Jos\u00e9 entra em cena e consegue que pessoas conhecidas da Ufrgs, atrav\u00e9s do departamento de f\u00edsica, reproduzissem, em a\u00e7o inox, a panela. Agora com capacidade para 80 quilos de fruta.<\/p>\n<p>Outra vez a fam\u00edlia demonstrou sua coragem. Foram os primeiros a produzir suco de uva ecol\u00f3gico, sem nenhuma certeza sobre o \u00eaxito e mesmo sobre as possiblidades de comercializa\u00e7\u00e3o. Hoje, na Serra Ga\u00facha, s\u00e3o produzidos cerca de oito milh\u00f5es de litros de suco de uva integral ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u2014 <em>\u00c9, o pai foi muito corajoso! Ouv\u00edamos muito \u201cse n\u00e3o usarem veneno na uva voc\u00eas v\u00e3o perder tudo\u201d. Mas a decis\u00e3o de n\u00e3o usar nada de qu\u00edmicos estava tomada. Lembro que tentamos dois anos com a ma\u00e7\u00e3 ecol\u00f3gica, a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi boa, cortamos as macieiras \u2014<\/em> diz Olimar.<\/p>\n<p>Deixo um pouco de lado a conversa sobre o passado e a emo\u00e7\u00e3o que nos provoca. Volto o olhar para o hoje.<\/p>\n<p>\u2014 E como est\u00e1 a feira, Olimar?<\/p>\n<p>Acho que ele ainda est\u00e1 em 1990:<\/p>\n<p>\u2014 <em>A feira foi um baita est\u00edmulo. Vend\u00edamos 30 molhos de cenoura, 15 de rabanete&#8230; por pouco que pare\u00e7a, naquela \u00e9poca era a vaca de leite melhorada, ampliada. Toda segunda um dinheirinho na conta. Lembro-me at\u00e9 hoje que na avalanche da framboesa voc\u00ea e a Ana vieram aqui de prop\u00f3sito no domingo s\u00f3 para entregar o dinheiro. Voc\u00eas chegaram na cancha de bocha do sal\u00e3o velho: \u201cviemos entregar o dinheiro da framboesa\u201d. Era uma boa grana, as pessoas que estavam ali ficaram olhando nosso movimento<\/em>.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea segue indo \u00e0 feira?<\/p>\n<p>\u2014 <em>Nunca deixei de ir. De dois anos para c\u00e1 caiu muito o movimento. Eram vendidos 250 molhos de cenoura, agora s\u00e3o 50. Os pre\u00e7os est\u00e3o altos e alguns de n\u00f3s estamos tentando analisar melhor a feira dentro da situa\u00e7\u00e3o atual. Aumentaram muito as feiras ecol\u00f3gicas em Porto Alegre, temos que nos adaptar ao momento. <\/em><\/p>\n<p>Eles comercializam tamb\u00e9m atrav\u00e9s da Coopaecia \u2013 Cooperativa dos Agricultores Ecologistas de Ip\u00ea e Ant\u00f4nio Prado, da qual s\u00e3o s\u00f3cios fundadores.<\/p>\n<p>Olimar fala de um manejo que me obrigo a ir ver. Implantando novos parreirais, tem plantado tomate em cons\u00f3rcio com as parreiras. Bela ideia. Com o que ganha no tomate financia a compra e manejo das mudas de uva. E essa se beneficia da aduba\u00e7\u00e3o e tratamentos foliares feitos no tomate. A cena do cons\u00f3rcio de uvas e tomates, os dois maduros, \u00e9 singular.<\/p>\n<p>A propriedade \u00e9 um primor de manejo dentro dos princ\u00edpios da agricultura ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u2014 De onde voc\u00ea aprende?<\/p>\n<p>\u2014 <em>Meio que j\u00e1 sabemos o que fazer, e alguma coisa vou pescando em conversas, ou quando visitamos alguns produtores no processo de certifica\u00e7\u00e3o participativa.<\/em><\/p>\n<p>Ele segue:<\/p>\n<p>\u2014 <em>N\u00e3o invento muito. Vou fazendo minhas experi\u00eancias&#8230; Plantei uva de mesa, vi que n\u00e3o era uma boa, desisti. O mesmo com a ma\u00e7\u00e3. Com o tomate me dei bem, sigo. Agora plantei batata salsa, gostei, vou ampliar um pouco. E assim vou<\/em>.<\/p>\n<p>Pergunto pelos vizinhos, agora \u00e9 o Gilmar que explica:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Hoje \u00e9 diferente, os vizinhos respeitam muito. N\u00e3o fazem porque para eles \u00e9 mais pr\u00e1tico seguir com o veneno<\/em>. <em>Menos trabalho, s\u00f3 passam veneno a cada oito dias e deu. Aqui no ecol\u00f3gico precisa de mais m\u00e3o de obra. Mas eles est\u00e3o usando bem menos qu\u00edmica. N\u00e3o abandonaram, mas diminu\u00edram muito.<\/em><\/p>\n<p>Volto ao Olimar e pergunto-lhe sobre os filhos. Miguel tem 15 e Gabriel tem 12. Cedo para qualquer conjectura sobre o futuro deles.<\/p>\n<p><em>\u2014 Claro que eu gostaria que eles ficassem, mas, se n\u00e3o ficarem, vou entender.<\/em><\/p>\n<p>Ou\u00e7o que o Miguel gostava mais de ajudar na ro\u00e7a quando podia ir para a feira. Mas, h\u00e1 uns dois anos, fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho passaram multando quem levava crian\u00e7a para trabalhar. Deixaram de levar os filhos \u00e0s feiras.<\/p>\n<p>\u2014 E os pr\u00f3ximos anos, Olimar?<\/p>\n<p>\u2014 <em>N\u00e3o sei. A Dani est\u00e1 trabalhando na Aecia h\u00e1 quase dois anos, por problema na coluna n\u00e3o pode lidar direto nas lavouras. Estou pondo a cabe\u00e7a para funcionar para ver como organizar o futuro, talvez aumentar os parreirais. Com a uva o trabalho \u00e9 s\u00f3 na poda e na colheita. N\u00e3o quero chegar aos 60 anos trabalhando como trabalho hoje<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem jeito, parece que nos reencontrarmos depois de tanto tempo nos impede de andar pelo futuro, estamos ancorados \u00e0s nossas recorda\u00e7\u00f5es. Olimar segue:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Foram anos muito bons, intensos. Sentimos muito quando voc\u00eas foram morar em Torres. N\u00e3o era s\u00f3 pela assist\u00eancia t\u00e9cnica, era a parceria. Voc\u00eas n\u00e3o tinham nada pronto, n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o. Constru\u00edmos juntos<\/em>.<\/p>\n<p>\u2014 E a romaria de visitas aqui na tua casa?<\/p>\n<p>\u2014 <em>Era toda semana, gente de todo lado, aqui do Estado e de outras partes do Brasil e do mundo. Foi um est\u00edmulo grande, mais para o pai, de certa forma, as visitas geravam mais seguran\u00e7a para ele, lhe davam confian\u00e7a de que estava no caminho certo<\/em>.<\/p>\n<p>O Centro Ecol\u00f3gico n\u00e3o tem um n\u00famero preciso, mas foram milhares de pessoas que visitaram esta propriedade. Por d\u00e9cadas foram nossa principal refer\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de uvas ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Sou e sinto que dev\u00edamos todos sermos gratos a estas fam\u00edlias que abriram a picada para a constru\u00e7\u00e3o de uma agricultura mais cuidadosa com o outro e com a natureza. Olir e Zilba Pontel, junto com os filhos, fizeram uma diferen\u00e7a ainda dif\u00edcil de mensurar.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria desta fam\u00edlia na agricultura ecol\u00f3gica tem algo de intermin\u00e1vel. Vou parar por aqui, mas sei que deixo muito por dizer ou contar.<\/p>\n<pre><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> O Centro de Agricultura Ecol\u00f3gica, que surgiu do Projeto Vacaria, \u00e9 uma ONG que atuou no mesmo espa\u00e7o f\u00edsico deste, mas com a preocupa\u00e7\u00e3o principal de divulgar a Agricultura Ecol\u00f3gica no munic\u00edpio de Ip\u00ea e na regi\u00e3o da Serra Ga\u00facha. Em fim dos anos noventa, nova mudan\u00e7a de nome para Centro Ecol\u00f3gico, que se define como uma organiza\u00e7\u00e3o de assessoria e forma\u00e7\u00e3o em Agricultura Ecol\u00f3gica.\r\n\r\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Padre Jo\u00e3o Bosco Luiz Schio nasceu em Caxias do Sul, na Capela de Santa Justina, em 15 de fevereiro de 1933. Nos anos 60 foi nomeado assistente nacional da Juventude Agr\u00e1ria Cat\u00f3lica (JAC) no Rio de Janeiro. Participou da cria\u00e7\u00e3o da CPT (Comiss\u00e3o Pastoral da Terra), e a coordenou de 1975 a 1988. Como P\u00e1roco de Ant\u00f4nio Prado, trabalhou na organiza\u00e7\u00e3o das comunidades, dentre outras atividades, marcando seu sacerd\u00f3cio por um profundo engajamento na vida do povo, principalmente do pequeno produtor.\r\n\r\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ana Luiza Carvalho Barros Meirelles, agr\u00f4noma, formada em Vi\u00e7osa, em dezembro de 1986. Em abril de 1988 chegou como estagi\u00e1ria ao Projeto Vacaria \/ CAE \u2013Ip\u00ea \/ Centro Ecol\u00f3gico, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje.\r\n\r\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Revolu\u00e7\u00e3o Verde \u00e9 o termo usado para designar um conjunto de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas introduzidas na agricultura a partir da d\u00e9cada de 1950. Principalmente agrot\u00f3xico, adubos qu\u00edmicos altamente sol\u00faveis, sementes h\u00edbridas e maquin\u00e1rio pesado. Pouco questionada em seu in\u00edcio, aos poucos seus malef\u00edcios foram sendo mais reconhecidos e hoje \u00e9 intensa a busca de solu\u00e7\u00f5es para superar seus efeitos colaterais. A Agricultura Ecol\u00f3gica, seus princ\u00edpios e pressupostos pretende demonstrar a fal\u00e1cia da afirma\u00e7\u00e3o de serem essas tecnologias imprescind\u00edveis para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos em volume necess\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o do planeta.\r\n\r\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Delvino Magro \u00e9 natural da Vila Segredo, munic\u00edpio de Ip\u00ea. Um dos pioneiros na agricultura ecol\u00f3gica no munic\u00edpio e regi\u00e3o. Nos anos 1970 e in\u00edcio dos 1980, Magro foi um dos respons\u00e1veis pela introdu\u00e7\u00e3o do cultivo da ma\u00e7\u00e3 no Estado. Posteriormente, participou da equipe t\u00e9cnica do CAE Ip\u00ea. Por tr\u00eas vezes foi secret\u00e1rio de agricultura do munic\u00edpio. Faleceu em outubro de 2003, aos 53 anos.\r\n\r\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Jorge Luiz Vivan. Agr\u00f4nomo, ao longo da vida, atuou em ONGs, como consultor independente e na Emater\/RS. Pautou sua atua\u00e7\u00e3o no estudo e no incentivo ao manejo agroflorestal. Faleceu em 2012. Dentre outros legados, deixou dois belos livros. \u201cPomar ou Floresta\u201d e \u201cAgricultura ou Floresta\u201d.<\/pre>\n<p><a href=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Cap-2.-Olimar-Pontel.pdf\">Para baixar o Cap 2. Olimar Pontel, clique AQUI<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/8561975695\/ref=cm_sw_r_cp_api_glt_i_C1FV628036E04QFF7FG3\">Para adquirir o livro &#8220;Vozes da Agricultura Ecol\u00f3gica&#8221; de La\u00e9rcio Meirelles, clique AQUI<\/a> ou pe\u00e7a no Instagram @laerciomeirelles<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Estou na comunidade Linha 30, interior de Ant\u00f4nio Prado, linda cidade de coloniza\u00e7\u00e3o italiana da Serra Ga\u00facha. A 50 quil\u00f4metros da famosa Caxias do Sul, a maior for\u00e7a econ\u00f4mica da principal regi\u00e3o vitivin\u00edcola do pa\u00eds. Segundo os n\u00fameros da equipe t\u00e9cnica do Centro Ecol\u00f3gico, na safra de 2016\/2017 foram colhidos 12 milh\u00f5es de quilos de uvas ecol\u00f3gicas na Serra&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":990005,"featured_media":2016,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990005"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2012"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2012\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2018,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2012\/revisions\/2018"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}