{"id":1937,"date":"2021-05-31T10:30:13","date_gmt":"2021-05-31T13:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/?p=1937"},"modified":"2026-03-12T14:35:26","modified_gmt":"2026-03-12T17:35:26","slug":"o-espirito-da-feira-como-a-primeira-feira-ecologica-do-brasil-a-feira-dos-agricultores-ecologistas-em-porto-alegre-tornou-se-espaco-de-memorias-trocas-e-conexao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/o-espirito-da-feira-como-a-primeira-feira-ecologica-do-brasil-a-feira-dos-agricultores-ecologistas-em-porto-alegre-tornou-se-espaco-de-memorias-trocas-e-conexao\/","title":{"rendered":"O esp\u00edrito da feira: Como a primeira feira ecol\u00f3gica do Brasil \u2013 a Feira dos Agricultores Ecologistas, em Porto Alegre \u2013 tornou-se espa\u00e7o de mem\u00f3rias, trocas e conex\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Camila Torres Brum<\/em><br \/>\n<em>Revis\u00e3o: Dirlene Ribeiro Martins<\/em><br \/>\n<em>Edi\u00e7\u00e3o: Lia Beltra\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Sempre percebi, desde crian\u00e7a, que aquele lugar era especial. Muitas cores, cheiros, sabores, muita gente, sotaques diferentes, alimentos que nunca tinha visto. Aquela rua pela qual eu passeava mudava completamente aos s\u00e1bados, no dia da feira. Entendia que a paisagem se transformava, e os tipos de rela\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. N\u00e3o era somente um lugar de compra de alimentos, era um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, de troca e muito agradecimento. Um espa\u00e7o que tem \u201calgo a mais\u201d, um brilho no olho em quem frequenta e em quem oferta aqueles alimentos puros e cheios de vida. Eu, que ia ali quase toda semana para fazer minhas compras, percebi que sempre sa\u00eda mais alegre do que chegava.<\/p>\n<p>Foi em outubro de 1989 que aconteceu a primeira edi\u00e7\u00e3o da Feira dos Agricultores Ecologistas \u2013 conhecida como FAE ou a Feirinha do Bom Fim, reconhecida hoje como a primeira feira ecol\u00f3gica do Brasil e uma das maiores feiras ecol\u00f3gicas do mundo. Desde ent\u00e3o, portanto h\u00e1 trinta anos, todos os s\u00e1bados, n\u00e3o importa a esta\u00e7\u00e3o do ano, dia no calend\u00e1rio ou previs\u00e3o do tempo, \u00e0s 4 horas da manh\u00e3 j\u00e1 come\u00e7am a chegar os agricultores e agricultoras vindos de v\u00e1rias regi\u00f5es do Rio Grande do Sul para montar suas bancas na Rua Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, em frente ao Parque Farroupilha, conhecido como Reden\u00e7\u00e3o, em Porto Alegre (RS).<br \/>\nAinda que eu tenha tido o m\u00e9rito de acompanhar e desfrutar, encantada, dessa feira hist\u00f3rica, estava bem ciente de qu\u00e3o rara ela \u00e9 diante das vis\u00f5es estreitas que t\u00eam conduzido nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo em geral. Assim como o ato de se alimentar, nossas rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o cada vez mais frias e distantes, tomadas pelo processo de industrializa\u00e7\u00e3o, da larga escala, da monocultura, t\u00e3o antag\u00f4nicos ao que se pratica na feira.<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es de que vivemos uma crise de vis\u00e3o de mundo, somadas a esse esp\u00edrito que percebia e sentia na feira, foram o que motivaram meu Trabalho de Conclus\u00e3o do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (<a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/189789\">leia completo aqui<\/a>). Como a feira adquiriu essa import\u00e2ncia patrimonial, podendo ser considerada patrim\u00f4nio cultural da cidade de Porto Alegre, a partir de uma conex\u00e3o espiritual do lugar, dos agricultores e agricultoras e do cidad\u00e3o urbano?<\/p>\n<p>Para responder \u00e0 pergunta que conduziu o trabalho, realizei entrevistas com tr\u00eas grupos de participantes da feira: agricultores, fundadores e consumidores. Juntamente com refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas que interconectassem a dimens\u00e3o ecol\u00f3gica com a dimens\u00e3o espiritual, como Lama Padma Samten, Fritjof Capra, Leonardo Boff e Nancy Mangabeira Unger, adentrei a hist\u00f3ria da feira e o contexto em que foi criada; refleti um pouco sobre Patrim\u00f4nio Cultural e tentei entender e traduzir essa energia que sustenta a FAE, que traz reencantamento e gera os benef\u00edcios dos quais eu mesma desfruto.<\/p>\n<h4>O florescimento da feira<\/h4>\n<p>A geradora da FAE foi a Cooperativa Ecol\u00f3gica Coolm\u00e9ia. A Coolm\u00e9ia, atuante em Porto Alegre de 1978 a 2004, foi um espa\u00e7o de milit\u00e2ncia e resist\u00eancia \u2013 pensado por pessoas da cidade \u2013 onde as ideologias ecol\u00f3gicas e naturalistas eram colocadas em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1939 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-300x205.jpg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-300x205.jpg 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-768x524.jpg 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-370x253.jpg 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-760x519.jpg 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1-740x505.jpg 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Aniversa\u0301rio-de-um-ano-da-FAE-em-1990.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-1024x699-1.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><span style=\"font-size: 0.923em; background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; text-align: inherit;\">Anivers\u00e1rio de um ano da FAE, em 1990. Imagem: Arquivo da FAE.<\/span><\/p>\n<p>A Cooperativa Coolm\u00e9ia, que funcionava como um entreposto de alimentos ecol\u00f3gicos e vegetarianos, nasce em um contexto espiritualista dentro da Grande Fraternidade Universal (GFU), a qual compreendia o cooperativismo como a a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Nova Era*.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca de efervesc\u00eancia cultural, o movimento ecol\u00f3gico foi bastante representativo no Rio Grande do Sul gra\u00e7as a figuras como Jos\u00e9 Lutzenberger, Ana Primavesi e Magda Renner, que percorriam o mundo questionando as consequ\u00eancias da \u201creligi\u00e3o do progresso\u201d e tamb\u00e9m da Revolu\u00e7\u00e3o Verde \u2013 que se iniciou em 1940. Esse processo instaurou no Brasil, e no mundo, uma crise socioambiental a partir da vis\u00e3o capitalista neoliberal, estreita e etnoc\u00eantrica, segundo a qual ser \u201cdesenvolvido\u201d \u00e9 ser urbano e industrializado, destruindo assim a diversidade cultural e espiritual da humanidade.<\/p>\n<p>Antes de sua ordena\u00e7\u00e3o, o Lama Padma Samten (ent\u00e3o Alfredo Aveline) foi associado da Coolm\u00e9ia, ocupando inclusive o posto de presidente no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Nessa \u00e9poca forneceu e comercializou na FAE, por mais de dez anos, iogurte produzido no S\u00edtio Rodeio Bonito. Segundo o Lama Padma Samten, em \u201c<a href=\"http:\/\/lojavirtual.cebb.org.br\/pd-304cba-o-lama-e-o-economista-dialogos-sobre-budismo-economia-e-ecologia.html\">O Lama e o Economista<\/a>\u201c:<\/p>\n<p><em>\u201cQuando reduzimos toda a sociedade a um a\u0302mbito econo\u0302mico, o ni\u0301vel mais profundo dos seres na\u0303o e\u0301\u00a0contemplado. Aquilo que verdadeiramente aspiramos a encontrar na\u0303o pode ser comprado.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Muitos eventos organizados pela Coolm\u00e9ia tiveram participa\u00e7\u00e3o ativa do Lama Samten, tanto na inaugura\u00e7\u00e3o da FAE, em 1989, quanto na cria\u00e7\u00e3o da Feira da Cultura Ecol\u00f3gica e da Biodiversidade do Menino Deus, em 1997, que tem por patrono espiritual Chagdud Rinpoche.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1949 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-300x197.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-768x505.jpg 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-370x243.jpg 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-760x499.jpg 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1-740x486.jpg 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Chagdud-na-Feira-do-Menino-Deus_arquivo-de-Marice-Padilha-1024x673-1.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 0.923em; background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; text-align: inherit;\">Chagdud Rinpoche, em 1997, na inaugura\u00e7\u00e3o da Feira da Cultura Ecol\u00f3gica e da Biodiversidade (atual Feira Ecol\u00f3gica do Menino Deus), ao lado de representantes da coordena\u00e7\u00e3o, dos consumidores e produtores da Coolm\u00e9ia e do secret\u00e1rio estadual da agricultura Hoffman, em 1997. Imagem: Arquivo pessoal de Marice Padilha.<\/span><\/p>\n<p>Os primeiros eventos de rua da Coolm\u00e9ia foram as feiras Tupamba\u00e9, que tiveram tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es, uma por ano, de 1986 a 1988. Uma \u201cpequena Woodstock\u201d, de acordo com a parceira urbana Barbara Benz. Em 1989, ano em que foi aprovada em n\u00edvel federal a \u201cLei dos Agrot\u00f3xicos\u201d (Lei n\u00ba 7802 de 11\/08\/1989), o coletivo, representado tecnicamente por Nelson Diehl, Glaci Alves e Jacques Saldanha, promoveu uma feira p\u00fablica de alimentos saud\u00e1veis e ecol\u00f3gicos. Era um s\u00e1bado de outubro, v\u00e9spera do Dia Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o. O sucesso foi absoluto: no meio da manh\u00e3, tudo havia sido vendido. Nascia a Feira dos Agricultores Ecologistas. Para o agricultor Pedro Lovatto, da cidade de Farroupilha (RS), que participou da primeira edi\u00e7\u00e3o da feira, a iniciativa foi transformadora e decisiva para o seu trabalho e sua rela\u00e7\u00e3o com a agricultura, pois ali conseguia escoar toda a sua produ\u00e7\u00e3o. Ele, assim como outros agricultores e agricultoras, decidiu investir realmente na propriedade a partir dessa experi\u00eancia na cidade.<\/p>\n<h4>A FAE hoje<\/h4>\n<p>Hoje em dia, a FAE \u00e9 composta por 44 bancas vindas de 32 munic\u00edpios do Estado do Rio Grande do Sul, beneficia 122 fam\u00edlias de agricultores diretamente e mais de 300 indiretamente, dez associa\u00e7\u00f5es, duas cooperativas e quatro assentamentos da Reforma Agr\u00e1ria, envolvendo 17 fam\u00edlias.\u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/47553641\">Veja aqui um v\u00eddeo<\/a>\u00a0produzido pelo Coletivo Aura sobre a FAE.<\/p>\n<p>A FAE \u00e9 autogestionada, representada e administrada pela Associa\u00e7\u00e3o Agroecol\u00f3gica. O principal objetivo da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 viabilizar a propriedade familiar rural por meio da agricultura ecol\u00f3gica e da integra\u00e7\u00e3o de seus associados, de forma horizontal e participativa, a partir de um olhar coletivo que trabalha em coopera\u00e7\u00e3o. Nas bancas da FAE, os produtores n\u00e3o s\u00e3o concorrentes: s\u00e3o c\u00e9lulas de um organismo que quer crescer e se beneficiar em conjunto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1942 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-300x169.png\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-300x169.png 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-768x432.png 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-370x208.png 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-760x428.png 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-740x416.png 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-270x152.png 270w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-540x304.png 540w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Reunia\u0303o-matinal-dos-feirantes-da-FAE.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 0.923em; background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; text-align: inherit;\">Reuni\u00e3o matinal dos feirantes da FAE. Imagem: Coletivo Aura.<\/span><\/p>\n<h4>Reconhecimento para enraizar: a import\u00e2ncia patrimonial da feira<\/h4>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (UNESCO), o Patrim\u00f4nio Cultural de uma na\u00e7\u00e3o, regi\u00e3o ou comunidade s\u00e3o todas as express\u00f5es materiais e espirituais que a constituem, incluindo o meio ambiente. Pode ser considerado um mediador simb\u00f3lico e social, um instrumento de constru\u00e7\u00e3o e fortalecimento de culturas, que congrega aspectos da sociedade que s\u00e3o aprendidos e partilhados por seus membros, de forma viva, din\u00e2mica. Saiba mais sobre patrim\u00f4nio cultural\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/dicionarioPatrimonioCultural\/detalhes\/85\">aqui<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/pagina\/detalhes\/234\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Para a agricultora Franciele Bell\u00e9, de Ant\u00f4nio Prado (RS) \u2013 que faz parte da segunda gera\u00e7\u00e3o da feira e \u00e9 m\u00e3e da terceira \u2013, na FAE os agricultores s\u00e3o realmente valorizados. Aldaci, m\u00e3e de Franciele, conta que \u00e9 tratada como uma \u201cprincesa\u201d na feira, e que essa valoriza\u00e7\u00e3o motiva alguns jovens a permanecerem no campo, uma vez que muitos deles est\u00e3o tendo melhores condi\u00e7\u00f5es financeiras e de qualidade de vida do que muitos trabalhadores liberais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1938 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-300x196.jpeg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-300x196.jpeg 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-768x501.jpeg 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-370x241.jpeg 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-760x496.jpeg 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE-740x483.jpeg 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Amanda-Lovatto-e-Franciele-Belle\u0301-na-feira-em-2002.-Imagem_-Arquivo-da-FAE.jpeg 920w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 0.923em; background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; text-align: inherit;\">Amanda Lovatto e Franciele Bell\u00e9 na feira, em 2002, ambas com 8 anos de idade. Hoje, Amanda est\u00e1 se formando em agronomia e trabalha com o pai, Pedro. Franciele \u00e9 agricultora, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Agroecol\u00f3gica e m\u00e3e de tr\u00eas filhos, que s\u00e3o a terceira gera\u00e7\u00e3o da feira. Imagem: Arquivo da FAE.<\/span><\/p>\n<p>Juarez, agricultor e produtor de arroz de Barra do Ribeiro (RS), participa da FAE h\u00e1 quase 20 anos e se reconhece sujeito de uma constru\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria e com uma cota de responsabilidade perante a humanidade a partir de um processo de resgate cultural com seu trabalho como Guardi\u00e3o de Sementes (<a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2018\/07\/guardioes-de-sementes-crioulas-uma-luta-por-autossuficiencia-sabor-e-saber\/\">Veja aqui uma mat\u00e9ria do Jornal Sul21 sobre a exposi\u00e7\u00e3o que fizemos na FAE em julho de 2018<\/a>), resgatando sementes crioulas, saberes e pr\u00e1ticas da agroecologia que visam \u00e0 autonomia e autossufici\u00eancia. Para o agricultor, esse \u00e9 o seu compromisso espiritual, o \u201calgo a mais\u201d que extrapola o limite do recurso econ\u00f4mico e passa a representar os frutos de uma rela\u00e7\u00e3o ser humano\/ambiente, ser humano\/terra, a partir do alimento que \u00e9 oferecido por ele.\u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/129385797\">Veja aqui o document\u00e1rio da s\u00e9rie Curta Agroecologia<\/a> sobre o Arroz Ecol\u00f3gico na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1940 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-300x188.jpg\" alt=\"\" width=\"499\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-300x188.jpg 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-768x482.jpg 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-370x232.jpg 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-760x477.jpg 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21-740x465.jpg 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Juarez-na-Exposic\u0327a\u0303o-_Os-Guardio\u0303es-de-Sementes_.-Imagem_-Guilherme-Santos_Sul21.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 499px) 100vw, 499px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; font-size: 0.923em; text-align: inherit;\">Juarez na exposi\u00e7\u00e3o \u201cOs Guardi\u00f5es de Sementes\u201d. Imagem: Guilherme Santos\/Sul21.<\/span><\/p>\n<p>A FAE \u00e9 um espa\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais coletivas, narrativas, mem\u00f3ria, identidade e constru\u00e7\u00e3o do sentimento de pertencimento. A preserva\u00e7\u00e3o desse patrim\u00f4nio se d\u00e1 a partir do cuidado, que exala dos agentes participantes da feira, como os frequentadores ou amigos\/parceiros urbanos, e tamb\u00e9m dos agricultores, por meio de um sentimento familiar, de se estar em casa. Cintia Mir\u00f3, parceira urbana desde os tempos da Coolm\u00e9ia, diz:<\/p>\n<p><em>\u201cHoje eu habito isso tudo sem precisar ir. Eu me sinto como parte dessa alma. Eu me sinto a composi\u00e7\u00e3o da feira.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Assim, esse \u201calgo a mais\u201d da FAE se d\u00e1 a partir dos la\u00e7os culturais, das pr\u00e1ticas individuais e coletivas, incluindo as trocas materiais \u2013 as rela\u00e7\u00f5es de compra de produtos \u2013 e simb\u00f3licas, como sentimentos, ideias, cren\u00e7as e valores no contato dos cidad\u00e3os urbanos com os camponeses, e vice-versa.<\/p>\n<p>A feira passa a ser um espa\u00e7o de afetividades e de cura, que tem esse \u201calgo a mais\u201d manifestado a partir de uma vis\u00e3o de sacraliza\u00e7\u00e3o e ritualiza\u00e7\u00e3o da natureza. Um lugar, segundo o agricultor Juarez, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com\u00e9rcio, mas uma c\u00e9lula da sociedade que queremos, onde as pessoas est\u00e3o inteiras, desarmadas e se olham no olho.A feira passa a ser um espa\u00e7o de afetividades e de cura, que tem esse \u201calgo a mais\u201d manifestado a partir de uma vis\u00e3o de sacraliza\u00e7\u00e3o e ritualiza\u00e7\u00e3o da natureza. Um lugar, segundo o agricultor Juarez, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com\u00e9rcio, mas uma c\u00e9lula da sociedade que queremos, onde as pessoas est\u00e3o inteiras, desarmadas e se olham no olho. Pedro Lovato conta que a FAE \u00e9 onde os agricultores se realizam, se abastecem e se alimentam com a energia, com o reconhecimento e a gratifica\u00e7\u00e3o dos frequentadores, criando, assim, rela\u00e7\u00f5es profundas de amizade, algumas vezes com sentimentos at\u00e9 familiares. Pontua que voltam para casa realizados, pois o alimento que fornecem foi produzido com muito pouca agress\u00e3o \u00e0 natureza; muitas vezes at\u00e9 colabora para sua recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1941 aligncenter\" src=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"497\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-370x208.jpg 370w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-760x428.jpg 760w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-740x416.jpg 740w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-270x152.jpg 270w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1-540x304.jpg 540w, https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pedro-Lovatto-em-sua-propriedade-Espac\u0327o-Sossego-em-Farroupilha_RS.-Imagem_-Coletivo-Aura-1024x576-1.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 0.923em; background-color: transparent; color: #858585; font-family: inherit; text-align: inherit;\">Pedro Lovatto em sua propriedade, Espa\u00e7o Sossego, em Farroupilha (RS). Imagem: Coletivo Aura<\/span><\/p>\n<p>Juarez constata que a feira \u00e9 uma troca, uma via de m\u00e3o dupla: da mesma maneira que os agricultores a constru\u00edram, eles tamb\u00e9m s\u00e3o por ela constru\u00eddos. Quase todas as rela\u00e7\u00f5es do agricultor surgiram por meio da feira. Ele explica: Desde cedo eu percebi que, no encontro com os parceiros urbanos, n\u00e3o se est\u00e1 recebendo s\u00f3 pagamento monet\u00e1rio, mas uma outra forma de pagamento: respeito, admira\u00e7\u00e3o, carinho, amor. No quarto ano na feira, ouvi coment\u00e1rios de que o alimento melhorava a cada safra. Conclu\u00ed que eu levo para casa o amor que recebo na rua e planto. No ano seguinte, essa rela\u00e7\u00e3o com o ambiente\/terra d\u00e1 um fruto com esse sabor acrescentado, o sabor do amor que eu recebo na cidade.<\/p>\n<h4>O esp\u00edrito da feira<\/h4>\n<p>O termo Esp\u00edrito do Lugar, que no budismo poderia ser traduzido como o aspecto sutil dos lugares, \u00e9 uma dimens\u00e3o profunda que faz a media\u00e7\u00e3o para captarmos um tipo de valor essencial, m\u00e1gico e sagrado dos lugares. \u00c9 uma percep\u00e7\u00e3o e uma sensa\u00e7\u00e3o muitas vezes indiz\u00edveis que d\u00e3o sentido, emo\u00e7\u00e3o e mist\u00e9rio.\u00a0<a href=\"https:\/\/leonardoboff.wordpress.com\/2012\/08\/27\/a-dimensao-do-profundo-o-espirito-e-a-espiritualidade\/\">Aqui texto de Leonardo Boff sobre a dimens\u00e3o do esp\u00edrito e da espiritualidade.<\/a><\/p>\n<p>Para entendermos o caminho da totalidade por meio do esp\u00edrito, precisamos sair da concep\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica dominante, fragmentada e dualista a que estamos acostumados. Dentro da percep\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, o fil\u00f3sofo noruegu\u00eas Arne Naess difere a \u201cecologia rasa\u201d, que \u00e9 antropoc\u00eantrica e utilitarista, da Ecologia Profunda, que oferece uma percep\u00e7\u00e3o de base espiritual e filos\u00f3fica. Esta \u00faltima busca questionar e transformar, pela ess\u00eancia, velhos paradigmas e nossa pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo, al\u00e9m de reconhecer cada ser vivo como um fio particular que tece a teia da vida. Essa vis\u00e3o integrada nos reconecta com uma nova \u00e9tica, uma nova forma de habitar o mundo a partir da percep\u00e7\u00e3o de viver em conex\u00e3o e harmonia com as for\u00e7as c\u00f3smicas da Natureza, em vez de faz\u00ea-lo de acordo com nossas pr\u00f3prias leis autocentradas. Segundo Lama Samten:<\/p>\n<p><em>\u201cSem eixo espiritual, acreditamos que o acesso aos bens, ao consumo e ao poder \u00e9 a \u00fanica fonte de felicidade. Um sistema econ\u00f4mico em expans\u00e3o, suicida e destruidor parece, paradoxalmente, a \u00fanica alternativa para a felicidade.\u201d\u00a0 \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Percebe-se ent\u00e3o que, na crise de percep\u00e7\u00e3o em que vivemos, houve o que Weber chama de desencantamento do mundo, um processo de ruptura com a experi\u00eancia espiritual, a magia, o sagrado, perante a predomin\u00e2ncia da racionalidade linear e instrumental. Para Lama Samten:<\/p>\n<p><em>\u201cO reencantamento \u00e9 um aspecto, poder\u00edamos dizer, revolucion\u00e1rio. Ou seja, o nosso cora\u00e7\u00e3o retorna. O mundo econ\u00f4mico entristece as pessoas que vencem dentro do processo dele. [\u2026] o sistema econ\u00f4mico tira a alma das pessoas, desconecta da natureza, remove o aspecto est\u00e9tico, remove a beleza.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para a entrevistada Cintia, a feira \u00e9 um espa\u00e7o de Terra Pura\u00a0(<a href=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/terra-pura\/\">leia texto do Lama sobre Terra Pura aqui<\/a>) onde as nossas melhores qualidades florescem e vamos nos transformando de dentro pra fora, a partir de nossas estruturas internas, para ent\u00e3o mudar a realidade:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 muito mais prov\u00e1vel que tu chegue \u00e0 feira e te alegre; veja que tem um monte de coisas para comprar, pode encontrar amigos. S\u00f3 de chegar ao espa\u00e7o, ele naturalmente te eleva. Se tu te perder internamente, estiver deprimido, vai para a feira, alguma coisa vai acontecer.\u201d<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">O esp\u00edrito do lugar \u00e9 transit\u00f3rio, din\u00e2mico, impermanente, assim como nossa experi\u00eancia e o universo que conhecemos. Ele vem, vai, volta, conforme o fluxo da mudan\u00e7a, inerente aos fen\u00f4menos. Est\u00e1 presente em um sorriso, um amanhecer, no cheiro de uma fruta fresca, em uma forma de falar, de andar, em uma atitude, nos valores, em um pensamento. Se ningu\u00e9m mais v\u00ea, ele desaparece; mas, se um \u00fanico ser lhe d\u00e1 energia, ele permanece, muitas vezes como vento que preenche todo o lugar ou como brisa suave.<\/h6>\n<p>Na FAE, quem est\u00e1 atr\u00e1s da banca oferta o alimento e toda a sabedoria materializada nele; quem est\u00e1 do outro lado oferece gratid\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o e reconhecimento. A agroecologia \u00e9 um dos caminhos para mudar o mundo, mas, para isso, a mudan\u00e7a come\u00e7a dentro de n\u00f3s, com nossas escolhas di\u00e1rias. Sinto que, se estivermos cada vez mais ativos, percebendo e evocando o esp\u00edrito da feira, ele ser\u00e1 capaz de fazer brotar uma nova forma de vida, baseada na conex\u00e3o e no cuidado com a Terra e com as rela\u00e7\u00f5es afetivas que constru\u00edmos entre n\u00f3s.<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Com o tempo e o aux\u00edlio de uma parceria forte com a AGAPAN (Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural), a Coolm\u00e9ia foi se desvinculando da GFU e se tornando um espa\u00e7o de refer\u00eancia em pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas no Brasil.<\/p>\n<hr \/>\n<h4><strong>Indica\u00e7\u00f5es de livros para se aprofundar no assunto:<\/strong><\/h4>\n<p>FREI BETTO. Sinfonia universal: a cosmovis\u00e3o de Teilhard de Chardin. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011. 127 p.<br \/>\nBOFF, Leonardo. Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9: o nascimento de uma \u00e9tica planet\u00e1ria. Rio de Janeiro: Garamond, 2002.<br \/>\nBOFF, Leonardo. Saber cuidar: \u00e9tica do humano \u2013 compaix\u00e3o pela terra. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<br \/>\nCAPRA, Frijot. A teia da vida: uma nova compreens\u00e3o cient\u00edfica dos sistemas vivos. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2009.<br \/>\nPADMA SAMTEN; CARUSO JR., Vitor. O Lama e o economista: di\u00e1logos sobre budismo, economia e ecologia. S\u00e3o Carlos: RiMa Editora, 2004.<br \/>\nUNGER, Nancy Mangabeira. O encantamento do humano: ecologia e espiritualidade. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Texto escrito 2019 para a Revista Bodistava<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Camila Torres Brum Revis\u00e3o: Dirlene Ribeiro Martins Edi\u00e7\u00e3o: Lia Beltra\u00e3o Sempre percebi, desde crian\u00e7a, que aquele lugar era especial. Muitas cores, cheiros, sabores, muita gente, sotaques diferentes, alimentos que nunca tinha visto. Aquela rua pela qual eu passeava mudava completamente aos s\u00e1bados, no dia da feira. Entendia que a paisagem se transformava, e os tipos de rela\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":990005,"featured_media":1948,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1937","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990005"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1937"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1950,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1937\/revisions\/1950"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1948"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}