{"id":1920,"date":"2021-05-20T13:03:58","date_gmt":"2021-05-20T16:03:58","guid":{"rendered":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/?p=1920"},"modified":"2026-03-12T14:35:26","modified_gmt":"2026-03-12T17:35:26","slug":"a-fae-feira-de-agricultores-ecologistas-de-porto-alegre-uma-historia-de-pioneirismo-e-ousadia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/feiraecologica.com.br\/fae\/a-fae-feira-de-agricultores-ecologistas-de-porto-alegre-uma-historia-de-pioneirismo-e-ousadia\/","title":{"rendered":"A FAE \u2013 Feira de Agricultores Ecologistas, de Porto Alegre \u2013 Uma hist\u00f3ria de pioneirismo e ousadia."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por La\u00e9rcio Meirelles<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, possui atualmente dezenas de feiras semanais que comercializam exclusivamente produtos ecol\u00f3gicos. Essas feiras, que acontecem em espa\u00e7os p\u00fablicos e privados, s\u00e3o hoje parte da arquitetura da cidade. Ocorrem nos mais variados bairros e quase todos os dias da semana, sendo o s\u00e1bado o dia que concentra o maior n\u00famero delas. Como nada surge do nada e, por consequ\u00eancia, tudo surge de algo, \u00e9 bom lembrarmos que a primeira feira com estas carater\u00edsticas, na capital ga\u00facha, ocorreu em 14 de outubro de 1989. Esse s\u00e1bado-feira, que deveria ser \u00fanico e comemorativo ao <em>Dia Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o<\/em>, acabou tornando-se a primeira edi\u00e7\u00e3o da FAE \u2013 Feira de Agricultores Ecologistas, que marcou posi\u00e7\u00e3o, fez hist\u00f3ria e gerou filhas. \u00c9 que o sucesso foi t\u00e3o grande que naquele mesmo dia os organizadores, em conjunto com as fam\u00edlias agricultoras que ali estavam, optaram por repeti-la no m\u00eas seguinte. Por treze meses ela foi mensal, por outros onze meses foi quinzenal, para, ap\u00f3s dois anos, assumir seu car\u00e1ter semanal.<\/p>\n<p>A mentora e organizadora deste movimento foi a Cooperativa Ecol\u00f3gica Coolm\u00e9ia, que, com um pioneirismo impressionante, pregava a comida naturista e o ecologismo popular desde fim dos anos setenta. Ecologismo esse que deveria come\u00e7ar por cada um de n\u00f3s, n\u00e3o descuidando dos alimentos que ingerimos e de como eles s\u00e3o produzidos. No cen\u00e1rio da capital, j\u00e1 existia a <a href=\"https:\/\/www.agapan.org.br\/\">Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural &#8211; Agapan<\/a>, criada como express\u00e3o da luta ambiental que surgiu nos anos 1970 em solos ga\u00fachos, liderada pelos saudosos Jos\u00e9 Lutzenberger e Augusto Carneiro. A Coolm\u00e9ia, na esteira da Agapan, consolida a cidade como precursora do movimento ambientalista e da agricultura ecol\u00f3gica em solos brasileiros.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, era muito comum ver o Lutz fazendo suas compras na FAE, aos s\u00e1bados pela manh\u00e3, junto com suas filhas, que hoje d\u00e3o prosseguimento ao trabalho do pai atrav\u00e9s da <a href=\"http:\/\/www.fgaia.org.br\/\">Funda\u00e7\u00e3o Gaia<\/a>. Carneiro tamb\u00e9m estava semanalmente por ali, at\u00e9 passar a feirante, vendendo livros que transitavam pelo tema da ecologia em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Eram momentos m\u00e1gicos quando, em meio \u00e0 feira, v\u00edamos uma roda de conversa formada por Lutzenberger, Carneiro, Sebasti\u00e3o Pinheiro e Jaques Saldanha. Alguns de n\u00f3s, mais jovens, coloc\u00e1vamos ouvidos atentos e olhares admirados sobre esses pioneiros da Agricultura Ecol\u00f3gica no Estado e o Brasil. E oportunidades assim multiplicavam-se a cada s\u00e1bado, com esses e outros nomes, tantos que n\u00e3o podemos aqui elencar todos.\u00a0 Entretanto, n\u00e3o podemos deixar de citar a Maria Jos\u00e9 Guazzelli, a Glaci Campos Alves e a Magda Renner.<\/p>\n<p>Quem esteve na FAE neste in\u00edcio nunca ir\u00e1 esquecer aqueles espa\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o coletiva, onde coloc\u00e1vamos em pr\u00e1tica conceitos que n\u00e3o conhec\u00edamos. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos o que eram circuitos curtos de comercializa\u00e7\u00e3o, mas o trabalho era desenvolvido nesta perspectiva. N\u00e3o sab\u00edamos o que seriam os <em>sistemas agroalimentares globais<\/em>, mas ali est\u00e1vamos, a cada s\u00e1bado, mostrando uma proposta que dizia algo sobre por onde eles deveriam ser reconstru\u00eddos. Mesmo a<em> certifica\u00e7\u00e3o org\u00e2nica<\/em> era um termo por n\u00f3s desconhecido no fim dos anos 1980, mas isso n\u00e3o nos impediu de pensar uma forma aut\u00f4noma e aut\u00e1rquica de garantir a qualidade ecol\u00f3gica (hoje mais conhecida por org\u00e2nica) da produ\u00e7\u00e3o ali comercializada. Ali\u00e1s, essa forma de certifica\u00e7\u00e3o, atualmente mais difundida como Sistemas Participativos de Garantia, ganhou mundo. Surgiu ali, na Feira de Agricultores Ecologistas, no NTA \u2013 N\u00facleo T\u00e9cnico Agropecu\u00e1rio da Coolm\u00e9ia e, hoje, \u00e9 reconhecida pelo mundo da Agricultura Org\u00e2nica e praticada em cerca de cem pa\u00edses.<\/p>\n<p>A FAE foi pioneira em muitos aspectos: naqueles idos, hoje talvez n\u00e3o seja t\u00e3o diferente, existia toda uma tribo urbana, digamos, alternativa, que tendia a ocupar esses espa\u00e7os. A Coolm\u00e9ia, atenta aos objetivos que se propunha ao construir a FAE, evitou que a feira fosse protagonizada por eles. A orienta\u00e7\u00e3o era que a agricultura familiar tivesse o papel principal naquele espa\u00e7o. Muitos desejos de fabricantes de p\u00e3es, biscoitos e tortas integrais, licores caseiros ou artesanatos com materiais naturais foram abortados, n\u00e3o sem gerar queixas e dissabores. A inten\u00e7\u00e3o nunca foi desmerecer o valor do trabalho que eles desenvolviam, mas era necess\u00e1rio priorizar. E a prioridade da FAE era a produ\u00e7\u00e3o <em>in natura<\/em> e seus protagonistas, agricultores e agricultoras familiares.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi na FAE que surgiu a ideia de ser criada uma Comiss\u00e3o da Feira, que seria respons\u00e1vel por gerir aquele espa\u00e7o de forma aut\u00f4noma. Essa iniciativa permitiu que, anos mais tarde, quando a Coolm\u00e9ia saiu de cena, as fam\u00edlias agricultoras tivessem plenas condi\u00e7\u00f5es de assumir a coordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e criarem sua pr\u00f3pria associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E muitas outras ideias que ali surgiram multiplicaram-se por outras feiras, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no Brasil e mesmo fora dele. Sim, porque foram in\u00fameras as visitas recebidas por parceiros de ideais, vindos de v\u00e1rios cantos, de diversos pa\u00edses, que passaram pela FAE para mirar essa iniciativa e ali buscar inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas&#8230; os grandes personagens dessas feiras sempre foram as agricultoras e os agricultores. Em um momento incipiente da Agricultura Ecol\u00f3gica, essas fam\u00edlias acreditaram e colocaram em pr\u00e1tica uma ideia que j\u00e1 fazia parte de seu desejo de produzir e comercializar produtos ecol\u00f3gicos.\u00a0 Eu, como agr\u00f4nomo do <a href=\"http:\/\/m.centroecologico.org.br\/\">Centro Ecol\u00f3gico<\/a>, entidade que surgiu em 1985, no munic\u00edpio de Ip\u00ea, para apoiar tecnicamente a transi\u00e7\u00e3o da agricultura convencional para a ecol\u00f3gica, fui testemunha cotidiana de como as fam\u00edlias foram criativas e audaciosas ao mudar seus sistemas de produ\u00e7\u00e3o, baseando-se nas poucas informa\u00e7\u00f5es que t\u00ednhamos. Ouvi do Gilmar Pontel, da<a href=\"https:\/\/www.aecia.com.br\/\"> AECIA<\/a>, fam\u00edlia pioneira na produ\u00e7\u00e3o de uva ecol\u00f3gica e a primeira a disponibilizar essa fruta na FAE: \u201cLa\u00e9rcio, n\u00f3s t\u00ednhamos muito poucas informa\u00e7\u00f5es, n\u00f3s fomos as cobaias, e nos orgulhamos disto\u201d.<\/p>\n<p>Eram poucos os livros com as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para ter um bom cultivo ecol\u00f3gico. Haviam textos do Lutzenberger, livros do Sebasti\u00e3o Pinheiro e o antol\u00f3gico Manejo Ecol\u00f3gico do Solo, da professora Ana Primavesi. Tamb\u00e9m o livro \u201cPlantas Doentes pelo Uso de Agrot\u00f3xicos\u201d, do pesquisador franc\u00eas Francis Chaboussou tornou-se uma importante refer\u00eancia. Vale ressaltar que esse \u00faltimo livro foi trazido para o Brasil pelo Lutz e traduzido pela j\u00e1 citada Maria Jos\u00e9. Eram poucos&#8230; \u00e9ramos poucos&#8230; poucos mas entusiasmados com a perspectiva de semear boas ideias, construir um rural diferente, que se harmonizasse com as cidades e fosse por essas valorizado na sua tarefa de produzir alimentos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lembro-me como o ent\u00e3o presidente da Coolm\u00e9ia, o Advogado e Engenheiro Agr\u00f4nomo Jacques Saldanha sintetizava o compromisso dos agricultores na produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis: \u201caqui na FAE, as fam\u00edlias agricultoras estendem sua mesa \u00e0s fam\u00edlias consumidoras\u201d. Simples e preciso.<\/p>\n<p>Vale ressaltar tamb\u00e9m o papel do Engenheiro Agr\u00f4nomo e Florestal Sebasti\u00e3o Pinheiro \u2013 n\u00e3o existe uma \u00fanica fam\u00edlia agricultora ecologista do Rio Grande do Sul que n\u00e3o utilize t\u00e9cnicas e se valha de informa\u00e7\u00f5es criadas ou explicadas pelo Sebasti\u00e3o. Muitas vezes verdadeiras aulas eram dadas ali, aos s\u00e1bados pela manh\u00e3, na FAE.<\/p>\n<p>Bom, n\u00e3o podemos aqui contar tudo que o vimos e ouvimos nesse espa\u00e7o tempo marcante. Mas deixamos aqui nossos agradecimentos e felicita\u00e7\u00f5es a quem \u201cviu antes\u201d e teve a ousadia de transformar essa vis\u00e3o em algo real. As ideias e ideais da FAE multiplicaram-se. Hoje s\u00e3o dezenas de Feiras em Porto Alegre, centenas no Rio Grande do Sul, milhares no pa\u00eds. Boa parte delas tiveram, de alguma forma, influ\u00eancia da FAE, mesmo que n\u00e3o saibam disto.<\/p>\n<p>Vida longa \u00e0 FAE, vida longa \u00e0s Feiras que, uma vez mais, com criatividade e pioneirismo em meio a pandemia do Covid-19, seguem oferecendo produtos ecol\u00f3gicos oriundos da agricultura familiar, dos camponeses e das camponesas e de trabalhadores rurais de todos os matizes.<\/p>\n<p>O necess\u00e1rio redesenho do Sistema Agroalimentar Mundial, na dire\u00e7\u00e3o do Bom, Limpo e Justo para todos, come\u00e7a por desenharmos circuitos curtos de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de alimentos com alta qualidade biol\u00f3gica. As feiras s\u00e3o um espa\u00e7o imprescind\u00edvel nesta dire\u00e7\u00e3o. Esse local de encontro precisa ser valorizado e apoiado de forma decisiva pela sociedade. N\u00e3o podemos nos deixar seduzir pelo canto de sereia do estacionamento f\u00e1cil, do ch\u00e3o brilhante ou da temperatura artificialmente controlada. Estes supostos prazeres t\u00eam um pre\u00e7o, um alto pre\u00e7o, usualmente pago pela sa\u00fade, de quem consome e da natureza.<\/p>\n<p>O compromisso da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, de forma igualit\u00e1ria, deve ser de cada um e cada uma de n\u00f3s, de todas e todos n\u00f3s. Refletir sobre o que comemos \u00e9 urgente e necess\u00e1rio. Afinal, o que nosso alimento alimenta?<\/p>\n<p>E voc\u00ea, que nos l\u00ea, j\u00e1 fez tua feira hoje?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por La\u00e9rcio Meirelles A cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, possui atualmente dezenas de feiras semanais que comercializam exclusivamente produtos ecol\u00f3gicos. Essas feiras, que acontecem em espa\u00e7os p\u00fablicos e privados, s\u00e3o hoje parte da arquitetura da cidade. 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